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Um pouco de História Imprimir E-mail

Nos “ idos “ dos anos 70, o Mestre Araújo Ferreira decidiu, juntamente com alguns discípulos entre os quais tive a honra de me encontrar, fundar uma Associação a  que chamou Associação Portuguesa de Medicina Acupunctural.
Eram tempos conturbados em que a acupunctura era vulgarmente tida como uma charlatanice (algumas vezes confundida com vudu !) e para a maior parte dos clínicos uma utilização rudimentar empírica de punctura que provocaria endorfinas que levaria ao alívio da dor.

Os praticantes eram desta ou daquela maneira perseguidos pela Medicina Oficial, algumas vezes judicialmente, outras por “esclarecimentos” públicos em que a tese mais utilizada era a de que o conteúdo da Medicina Natural, Medicina Tradicional Chinesa incluída, ( confundida com as mézinhas da aldeia, ou a charlatanice pura ) “ não era científico “.
Lembro um dos programas televisivos de maior  audiência da altura na RTP1, o “ Já agora...”, tipo do actual “ Prós e Contras “ em que me coube a mim ficar a representar a Medicina Não Convencional.

Foi interessante verificar toda a preparação de bastidores entre o representante da Ordem dos Médicos e o entrevistador, feita em lugar a que nós não tinhamos acesso, e que durou cerca de meia hora.
O representante da Ordem dos Médicos, entretanto já falecido, durante a emissão focou dramaticamente o não cientismo da Medicina natural fazendo apelo às massas para prestarem atenção a esse facto.

Felizmente para nós, a intervenção dos “naturologistas“ (eram uns cinco na plateia, todos reconhecidamente muito competentes e com qualidade científica ocidental), foi melhor que a do adversário. Recebi posteriormente em minha casa muitos telefonemas de médicos pedindo desculpa pela argumentação utilizada e em que se não reviam. Foi sempre assim com os que não defendem os interesses classistas à sombra de argumentação para “ epater  le bourgeois “.

Uma das mais espectaculares e eficazes acções anti-acupunctura foi a de que as agulhas eram veículos da SIDA, fazendo que muita gente fugisse a 7 pés.

Ser-vos-á fácil compreender o efeito que ainda hoje perdura, de tal ordem que aos dadores de sangue é ainda perguntado se fizeram acupunctura recentemente, o que os impedirá de fazer a sua doação. No entanto não é perguntado se foram ao barbeiro ou à manicure !!!

Seria ignorância de que as agulhas eram descartáveis e NUNCA utilizadas em mais do que uma pessoa (o que não acontecia frequentemente com as agulhas de enfermagem), quando utilizadas por acupunctores ?!
É melhor ficar por aqui !
TV, Jornais, Revistas, etc. lá vinham de vez em quando com as doutas explicações de doutos ignorantes que no mesmo saco metiam (propositadamente) o charlatão da banha da cobra com aqueles que porventura tinham tantos ou mais anos de estudo do que eles.

O Mestre e alguns de nós lá tinhamos que procurar reagir e ripostar aos escritos, na maior parte das vezes com “ cartas ao director “ pedindo direito de resposta, ou que nos confrontar em debates públicos, onde a argumentação principal foi sempre que a MTC “não era científica “ .

TRINTA E DOIS ANOS já eu tenho de combate em defesa da MTC, e alguns mais da Naturologia. As coisas embora já  muito diferentes, ainda não estão mínimamente seguras, e o que mudou foi o interesse da Medicina Convencional pela Acupunctura que pretende aprender em algumas horas o que para nós leva cinco anos e estágio. Mas sempre houve capacidades intelectuais superiores que conseguem misturar paradigmas e aprender em “ turbo “ !

Convém que os colegas mais novos se não esqueçam que isso do contraditório é uma conquista muito recente e que naquela altura a Lei defendia que só havia uma Classe que sabia de Saúde, portanto sua detentora, dona, senhora absoluta. Essa  era a Medicina Convencional. Isto servia para a Medicina Tradicional, Chinesa ou Indiana, Homeopática ou qualquer outra. Tanto fazia provar a capacidade técnica dos praticantes, o seu saber, as provas dadas em casos múltiplos de inoperância convencional, ou mesmo o livro que o Mestre publicou e cuja aceitação foi tal que foi traduzido em Braille, que a reacção corporativista era sempre a mesma.

Era pois absolutamente necessário constituir a associação dos praticantes, por forma a que, pelo menos, por um lado se defendessem colectivamente e por outro se distanciassem da charlatanice que ainda hoje perdura e que abusa de títulos que em nada correspondem aos conhecimentos dos seus usurpadores.

Os fundadores eram na sua maioria pessoas com um curso superior ou que tinham completado o Liceu.
Entretanto e pela sugestão do Mestre e dalguns de nós, em reunião com representantes da Acupunctura Espanhola, aqui em Portugal, foi pensada a criação duma Confederação mundial de acupunctores.
Foi-nos pedido que o concretizássemos, o que não foi possível por incapacidade financeira. ( O que parece nunca mudar ! ).
Dois anos depois realizava-se em Madrid o primeiro encontro não só de acupunctores como de todas as áreas da Medicina não convencional. Os poucos que restavam da APMA foram aceites sócios fundadores por gentileza dos nossos colegas espanhóis.

O desaparecimento físico do Mestre levou também à inacção da Associação durante muito tempo sujeitando-se ao aproveitamento de alguns e ao desaparecimento de Actas e outros documentos que hoje seriam história..
Em Espanha cabia ao Dr. Femin Cabal continuar a promoção da MTC com a sua actividade extraordinária que apesar de todas as adversidades conseguia pesar e até influenciar as Autoridades portuguesas.

Tive a oportunidade de participar e acompanhar todas as vicissitudes da criação das nascituras FENAMAN.
Várias foram as tentativas de activar sériamente a APMA, mas os resultados não foram os esperados.
A dita “classe” de Naturopatas sempre enfermou dumas características muito especiais. Nunca ninguém conseguiu entender-se muito bem, surgindo conflitos constantes em que o “ego” se sobrepunha aos interesses colectivos, cegando o objectivo último de dignificar e qualificar as várias vertentes da Medicina Natural por forma a ser possível o seu reconhecimento pelas Autoridades Públicas.

Muitos das várias áreas e Associações procuraram por todos os meios possíveis estabelecer critérios e competências, mas os interesses pessoais ou económicos impediram a sua realização e conseguiram o afastamento dos mais válidos.
Surgem no entretanto algumas Escolas, entre as quais a Escola Superior de Medicina Tradicional Chinesa, de que tive a honra de também ser fundador.

Finalmente havia uma Escola de MTC qualificada, cujo objectivo estava bem definido e cujos padrões de ensino acompanhavam o que era o modelo das outras Escolas Superiores. Isto deve-se à Dra. Deolinda Fernandes e ao Dr. José Faro, sem qualquer espécie de dúvida ou adulação.
Existindo a Escola e alunos que se foram formando em qualidade, dado o trabalho árduo de convencimento da Universidade de Nanquim em estabelecer um protocolo de entendimento, ( não podemos esquecer que aquela Universidade é a mais antiga na formação em MTC ), surgia de novo o que era imperativo como corolário de todo o resto - Criar uma Associação Profissional.

A Associação teria que ser necessariamente exigente no seu Regulamento.
O Regulamento, o Código Deontológico, o Código Disciplinar, o Conselho Científico, etc. etc. teriam que estar na vanguarda do que havia mundialmente e das normas da Organização Mundial de Saúde para as vertentes da Medicina, ocidental ou outra.
O cariz holístico e humanista, não podia ser descurado.
Por outro lado, a formação contínua de actualização, dadas as características  evolutivas da Ciência Médica que é o modelo da MTC, era pedra angular do sistema a criar.
Todo este trabalho foi conseguido, com o esforço de muito poucos.

Surgida a Lei 45 AGO 2004, havia que estabelecer o Grupo de Trabalho cuja tarefa é a Regulamentação das várias vertentes. Muitas Associações se propuseram, das mais conhecidas públicamente de acupunctores não médicos, à que representava os interesses da Medicina Convencional.
A decisão de escolha da Direcção Geral de Saúde recaiu sobre a nossa Associação ali representada pelo Dr. José Faro, Presidente da Direcção, com o voto escrito favorável de todas as outras que ali estavam representadas e ainda da Federação de Associações de Medicinas Naturais .
Valera a pena o trabalho de meses na elaboração da moldura regulamentar da nossa Associação que terá certamente demonstrado a qualidade e exigência requerida para dela fazer parte..

Felizmente as candidaturas de profissionais estrangeiros justifica a qualidade internacional do conteúdo regulamentar e do objectivo da APAMTC.
Será agora que se vai conseguir, apesar da dificuldade e da exigência  requerida para se tornar associado, que é compreendida pelos profissionais portugueses a necessidade de se comprometerem na Associação, garantindo ao Estado português e ao Espaço Europeu, a sua qualificação pelo simples apresentar de cartão de associado, coabitando com orgulho profissional com os outros agentes da Medicina, qualquer que ela seja ?

Será agora, passados 40 anos de perda de tempo, que há maior esclarecimento dum conjunto de profissionais que se querem organizar em Classe, como o são os Osteopatas, os Médicos, os Enfermeiros, os Psicólogos, etc. defendendo a sua designação profissional e impedindo a usurpação de títulos por qualquer charlatão?
Será agora que, para sempre, a falta de cientismo, de organização, de demonstração de qualidade, de Deontologia, poderá ser argumento dos detractores ?

Isto só poderá acontecer com uma Associação forte e cujos parâmetros de qualidade possam ser publicamente demonstrados como o que nos propomos para a actualidade e para o futuro.
Isto só poderá acontecer com a participação activa dos que verdadeiramente constituem o corpo de agentes da Medicina Tradicional Chinesa em Portugal e que por ela continuarão a lutar até que a sua dignificação seja reconhecida, já que a qualidade de ensino o é entre as Escolas mais exigentes da Europa.
Esperamos por si.

Presidente da Mesa da Assembleia Geral da APAMTC Araújo Brito